4 de Abril de 2008

A menina do bordado

Bruna Presmic
Capítulo 1
A pequena Maria

Maria é uma menina muito especial. Aos sete anos, a filha única de dona Alzira, já viveu algumas desventuras, mas nem por isso perdeu a inocência e o brilho no olhar. O pai de Maria morreu há quatro anos em um trágico acidente e deixou a filha e a esposa sozinhas e com muitas dificuldades.

Dona Alzira é uma costureira de mão cheia. Ela vende seus bordados para sustentar a pequena Maria que, apesar da pouca idade, ajuda muito a mãe nos afazeres domésticos. Os bordados de dona Alzira fazem sucesso na região, mas mesmo com tantas encomendas, o dinheiro que junta no fim de cada mês é pouco, quase insuficiente, para pagar o aluguel e a alimentação. Por causa do apertado orçamento, há tempos Maria não veste roupas novas e seu único calçado, desbotado e sem cadarço, já não cabe direito em seus pés. Brinquedos então? A pequenina só tem uma boneca que seu pai lhe deu pouco antes de partir, uma boneca que Maria ama mais que tudo...

Apesar das dificuldades e da difícil vida, Maria não é uma menina triste, muito pelo contrário. Sua mãe, que é a pessoa que mais convive com Maria, fica intrigada quando pensa como é possível uma menina tão sozinha e tão cheia de responsabilidade ser verdadeiramente feliz. Maria não sai de casa nunca. Além de ajudar com a limpeza, ela também atende ao telefone e repassa as encomendas, para que sua mãe não precise parar o trabalho a toda hora. A pequena, apesar de não saber escrever – nunca teve oportunidade de freqüentar uma escola – é muito esperta e tem uma memória incrível. Mas seria muita irresponsabilidade resumir a pequena Maria dessa maneira. Maria é uma menina muito especial, ela tem um segredo.

Capítulo 2
Os incríveis bordados de dona Alzira

Dona Alzira não sabia, mas tinha um dom. Toda vez que bordava, não importa que peça fosse, ela transmitia a emoção que estava sentindo no momento para o desenho, para as telas, para as linhas, e, no final do trabalho, o bordado carregava o sentimento da costureira. Se no momento de bordar um pano de prato, por exemplo, ela estiver feliz, o desenho transmitirá felicidade. Porém, se ela estiver triste – mesmo que o bordado seja uma bonita paisagem – o desenho transmitirá tristeza. E assim acontecia com a angústia, o alívio, a ira, o medo, a saudade... Enfim, dona Alzira bordava sentimentos.

Todos os bordados, os com bons sentimentos e os com sentimentos ruins, tinham a mesma beleza aparente. Mesmo sem saber do que era capaz, dona Alzira, assim como a clientela, percebia uma diferença entre os bordados (mesmo quando os desenhos eram iguais). Nunca ninguém se atreveu a definir qual era o mistério que rondava os trabalhos da bordadeira.

Todos que já conheciam o trabalho de dona Alzira chamavam-na de ‘a maga dos bordados’ e, ao encomendarem um trabalho, proseavam sobre o pedido – se seria um presente ou uma aquisição pessoal e contavam como andava a vida. Curiosamente, os bordados que mais vendiam eram os que carregavam saudades, saiam mais até do que os com alegria. Havia encomendas melancólicas, que dona Alzira bordava com um nó no peito, pois seja qual fosse o pedido, ela nunca se negava a bordar – talvez por desconhecer sua habilidade de ‘prender’ sentimentos. A maioria dos compradores, que em vez de encomendar escolhia os bordados já prontos, optava pelos felizes, mas existia quem comprasse os bordados tristes. Existiam bordados para todos os gostos e gostos para todos os bordados, tanto é que nenhum nunca ficava encalhado.

No mundo inteiro, apenas uma pessoas podia explicar os bordados de dona Alzira, essa pessoa era a pequena Maria – que entendia bem o trabalho de sua mãe e também escondia de todos um segredo...

Capítulo 3
O segredo de Maria

A pequena Maria conhecia bem o dom de sua mãe. Conhecia, entendia e tirava um bom proveito dos incríveis bordados. A menina sabia diferenciar perfeitamente cada sentimento que ficava preso nos desenhos da mãe. Mas ela só havia falado sobre isso com sua boneca, com mais ninguém. A pequena nunca comentou, não por ser um assunto complicado ou por medo (e sim, ela tinha consciência de que era a única que podia explicar o que a mãe podia fazer), mas ela receava que o seu segredo fosse revelado junto. Sim, o segredo da pequena não é apenas o poder de explicar os sentimentos bordados pela mãe. Maria também tinha um dom, também fazia sua mágica.

Maria passava muito tempo sozinha e, por não ter brinquedos e nem muito com o que se entreter, ela gostava de olhar os bordados de mãe. Foram muitas horas, dias, talvez anos observando os bordados. Cada vez mais ela ficava encantada com o trabalho de dona Alzira. Cada vez mais aprendia. E apesar de não saber precisar quando foi a primeira vez, Maria lembra bem, como se tivesse acontecido ontem. Era fim de tarde e dona Alzira saiu para entregar as encomendas que tinha finalizado. Como de costume, a menina foi admirar os desenhos e, de repente, caiu para dentro do bordado.

Não demorou muito para a esperta Maria entender o que tinha acontecido. Ao ver ao seu redor as grandes árvores verdes, o imenso sol brilhando, as lindas borboletas cor-de-rosa e o pequeno lago translúcido, a pequena soube que era o cenário que há poucos segundos olhava, bordado. Ficou maravilhada com a ‘mágica’ que acabara de acontecer. Pensou por uns instantes se todas as crianças do mundo poderiam fazer aquilo. ‘Se tem gente que mora dentro da televisão da casa da Chicota’ - vizinha que morava na casa da frente - pensou Maria, ‘porque não se pode entrar no bordado da mamãe?’ Apesar de achar o fato natural, a sabida menina resolveu não comentar com ninguém, pelo menos por enquanto.

Maria saiu do bordado rapidamente, antes que sua mãe retornasse, mas não conseguia pensar em outra coisa. À noite, na hora de dormir, ela contou sua aventura para a querida boneca – que havia ficado ao lado do bordado, observando Maria, e foi muito útil para a menina, quando precisou achar o caminho de volta. Nos dias que se passaram, sempre que dona Alzira se ausentava de casa, Maria escolhia um bordado – de preferência os com bons sentimentos – e entrava dentro dele.

Ela conhecia lugares e pessoas novas praticamente todos os dias. Comia guloseimas que nunca tinha imaginado que pudessem ser feitas. Tomava banho de cachoeira, colhia flores e era feliz. Vivia intensamente. Já tinha sentido mais do que muita gente mais velha, pois as experiências vividas em seu fantástico mundo bordado eram reais. Apesar de já ter tentado, ela não conseguia trazer nada de dentro (além das lembranças) do bordado para sua casa e nem vice-versa. Já quis entrar com sua boneca, mas não obteve sucesso. Sempre que partia numa nova história, ela deixava a boneca bem perto do bordado, para cuidar e ser uma referência para achar o caminho de volta...

Capítulo 4
Dentro do bordado

Já havia se passado anos desde a primeira vez que Maria tinha entrado num bordado. Ela conhecia todos os sentimentos e tinha lá suas preferências. Concluiu que, por pior que pareça uma emoção, de alguma maneira se pode tirar um bom proveito dela. Sua mãe era mestre em bordar o lado bom das coisas. Maria gostava da ternura, da bondade e, claro, da felicidade. Evitava a raiva, a ira e a angústia. Mas o que temia – e nessa ela só havia ido uma vez – era a saudade.

A saudade era mais triste que a tristeza, mais melancólico que a melancolia e carregava ainda um pouco de revolta e arrependimento. A experiência de entrar na saudade foi tão ruim que ela nem pensava sobre o assunto, pois havia tantos outros sentimentos a serem explorados, que realmente não valia a pena.

Porém, certa época, dona Alzira recebeu uma grande encomenda de uma saudosa mãe que gostaria de presentear a filha, que havia se casado e mudado de cidade. Era um enxoval inteiro de saudade... A ‘maga dos bordados’ já trabalhava há um mês inteiro na encomenda: eram toalhas de banho e rosto, roupas de cama, panos de pratos, cortinas para a cozinha e banheiro. Toda vez que Maria pensava em entrar em um bordado vacilava, pois todos eram de saudade. Mas como a muito tempo não se aventurava, ela resolveu que enfrentaria aquele sentimento que tanto a assustava. Lá foi Maria, mergulhada em saudades...

A paisagem era uma vila antiga que lembrava muito as cidadelas da região da Île-de-France, era linda, como de praxe nos bordados de dona Alzira, mas muito calma a até mesmo um pouco sombria... Maria ficou preocupada. Olhou para ver se sua boneca estava observando tudo e, ao ver que sim, relaxou – a boneca sempre foi sua referência para encontrar o caminho de volta. Aos poucos a pequena foi se entregando ao sentimento. O vento que soprava seus cabelos era mais frio que o normal, mas não chegava a incomodar. Ela encontrava-se em uma grande estrada de pedras e, descalça, caminhava lentamente, tentando enxergar o que tinha a frente. A neblina limitava a vista. Logo mais observou um castelo escuro, ao fim da estrada. Rumou para lá. Quanto mais se aproximava do lugar, com mais força o vento soprava. Já perto da porta de entrada assobiava um barulho ensurdecedor. Toda desalinhada, com a saia levantada e uma grande agonia, ela atravessou, subitamente, o murro do castelo. Pobre Maria, nem percebeu que a ventania havia derrubado sua querida boneca no chão.

Dentro dos limites do castelo era mais frio do que fora. ‘Que lugar estranho, confuso, não sei se gosto daqui’. Passando pelo portão principal ela avistou o que concluiu ser um labirinto. Por um segundo recuou, mas a curiosidade falou mais alto e a corajosa garotinha entrou. Em algum outro bordado ela tinha aprendido uma técnica - que na hora pensou ser inútil, mas agora era de grande valia - ‘para sair de qualquer labirinto’ explicou um antigo caçador de dragões, ‘basta encostar sua mão direita na parede direita e ir andando sem desencostar’. E foi assim que ela conseguiu sair do outro lado.

O castelo era maior do que parecia de longe, Maria se sentiu muito pequena, menor do que o normal. A porta de entrada era colossal. Ela pensou ‘só mais uma checada na boneca e entro’. Cadê a boneca? Maria olhava, procurava, se virava na direção em que a boneca deveria estar, e nada. Por um momento ela pensou que tinha perdido o senso de direção, por causa do labirinto. Mas não via a boneca em lugar nenhum. Mal sabia ela que a boneca estava no chão de sua casa, pois o vento estranho e sombrio que emergia do bordado tinha a derrubado. Mil coisas passaram pela cabeça de pequena. O desespero tomou conta do seu coração por uns instantes. Ela se abaixou, deixou as lágrimas escorrerem pelo rosto. Respirou profundamente, recuperou as forças e se levantou.Foi exatamente nesse momento que dona Alzira adentrou sua casa. Viu a boneca no chão e chamou por Maria. ‘Deve estar comendo escondido, aquela minha filha gulosa’, pensou e sorriu displicentemente. Pegou a boneca do chão e a colocou na estante. Olhou de relance o bordado da antiga vila, que havia feito em uma cortina, e observou que entre o labirinto e a porta do castelo havia uma pessoinha, que ela nem se lembrava de ter feito. Mas era tão bonita que resolveu bordar. ‘Ela será a princesa do meu castelo’. E foi com esse pensamento que dona Alzira, sem saber, prendeu Maria para sempre dentro do bordado.

Bruna Presmic

21 de Março de 2008

O Sufocador de Almas

Bruna Presmic
Capítulo 1
Os olhos

Francisco é uma pessoa normal, comum. Nem bonito, nem feio, nem alto e nem baixo, nem gordo, nem magro. O cabelo castanho sem brilho mas bem cuidado completa um visual medíocre, sem nenhuma característica física que se pode destacar. A primeira vista, passaria facilmente despercebido pela multidão. Mas, como costumamos dizer 'não julgue o livro pela capa'... era só se aproximar um pouco mais para poder ver os olhos deles.

O olhar sem foco de Francisco se destacava na proximidade. Mesmo a meio palmo de distância não se conseguia definir ao certo se os seus olhos eram castanhos esverdeados ou verdes acastanhados. Assim também como não poderia se afirmar se o balzaquiano enxergava algo. Sem querer abusar de máximas, mas se é verdade o que dizem por aí que 'os olhos são o espelho da alma', então, talvez, Francisco tenha um problema bem maior do que simplesmente falta de carisma...

A verdade é que Francisco vê sem enxergar. Não está em um mundo de escuridão completa, mas desde pequeno seus olhos não conseguem definir imagens. A vida, para ele, não tem linhas, é como uma fotografia tirada em movimento: um borrão colorido. Sendo assim, Francisco não consegue, pelo menos sozinho, distinguir uma paisagem de uma pessoa por exemplo, pois tudo se funde em uma explosão de cores sem limites precisos.


Capítulo 2
Aprender a ver

Desde pequeno Francisco apresentava dificuldades em enxergar e sua mãe o levou a vários médicos especialistas. Por mais que realizassem exames, nunca nenhum deles encontrou nada de concreto. Já havia se especulado sobre ambliopia - uma doença que atinge especialmente crianças e impede que se 'aprenda a ver' – também se especulou sobre um alto grau de astigmatismo e até mesmo uma precoce degeneração muscular. Mas nunca houve um diagnóstico definitivo e nenhum dos remédios receitados tinha apresentado resultado, por isso a condição de Francisco foi aceita e assim ele cresceu.

Pouco depois que começou a se entender por gente, lá pelos seis ou sete anos, foi que Francisco reparou que quando se deparava com a face de outra pessoa bem próxima a sua, ele conseguia enxergar com nitidez e definição tudo que se refletia nos olhos alheios. A primeira fez que aconteceu foi quando sua mãe o colocou na cama e, ao se debruçar para cobri-lo e beijar lhe a testa, ela chegou com seus olhos bem próximo ao olhos dele... por uma fração de segundos Francisco se viu nos olhos da mãe.

Francisco pensou, em um primeiro momento, que o acontecido era fruto de sua fértil imaginação. Tanto sua mãe, quanto sua avó gostavam de ler para ele e as incríveis histórias sempre aguçavam a mente do menino, que vivia a fantasiar aventuras. Porém o fato começou a se repetir sempre e ele contou (e provou) para sua mãe o que ele conseguia fazer.


Capítulo 3
Além do olhar

As atenções sempre foram voltadas para o problema de visão de Francisco que, talvez não por isso, desenvolveu uma personalidade apática. Ele não se envolvia com as pessoas, não apresentava interesse aparente por nada, era até possível afirmar que não tinha sentimentos...

'Esse menino não tem alma', foi a primeira coisa que o avô materno disse ao olhar Francisco recém nascido. 'Veja o olhar dele', insistia, 'sempre ouvi falar em pessoas desalmadas, mas achava que elas não existiam'. Ninguém deu muita atenção ao avô que vire e mexe soltava umas maluquices de seus tempos, mas a verdade é que ele parecia ter medo do menino e evitava-o a todo custo.

Quando a mãe de Francisco contou a seu pai que o menino podia enxergar através do reflexo de seus olhos, o horror tomou conta do rosto dele: 'Você não entende minha filha, o menino não tem nenhum problema de visão, o que acontece é que ele não possui uma alma... ele enxerga através de seus olhos pois toma como emprestada a sua alma'. Por um instante ela refletiu sobre as palavras do pai, não que quisesse acreditar naquela história macabra, mas sim por causa do que sentia quando seu filho via pelos seus olhos. Era um vazio sem fim, um sentimento triste e perturbador, como se tivessem acabado com toda sua esperança. Acontecia todas as vezes que se os olhos nos olhos se repetia, pensava, até aquele momento, que era um sentimento de pena pelo situação, mas ela estava muito enganada.

As palavras do pai remoeram sua cabeça por anos, ela evitava o filho sempre que podia, ela e todos que conheciam Francisco. A rejeição e o isolamento parecem não ter mexido nem um pouco com ele que continuou crescendo e tornou-se um homem. Assim, mais velho, Francisco começou a sair mais de casa e sempre que encontrava uma pessoa na rua, tentava uma aproximação para usar-lhe a alma. Ele já tinha escutado a tal história que, agora falecido, o avô em outrora contava. Mas nunca demonstrou e nem opinou nada a respeito. Ele sabia bem que o que fazia não era bom para as pessoas, mas não tinha muito definido em sua cabeça o que era bom e o que era mal, simplesmente fazia por uma necessidade, quase um instinto.

Um dia, sentado no banco da praça em frente de sua casa, uma bela menina se aproximou de Francisco. Muito tímida, ela já vinha vigiando ele há algum tempo. Conhecia as histórias que contavam sobre ele, mas com a curiosidade da juventude pulsando em suas veias, ela se aproximou. Mesmo sem nada de interessante para falar, era impressionante como a voz de Francisco era envolvente. No começo, a garota ainda conseguiu evitar seus olhos, mas depois de alguns minutos, estava mergulhada numa angústia sem fim, em um estado de perturbação total, como um sufocamento... foi mais do que ela podia agüentar, o esgotamento emocional fez com que caísse, já sem vida, aos pés de Francisco, que se levantou e foi embora.


Capítulo 4
O sentido da vida

Todos comentavam o acontecido, diziam que a pobre menina havia morrido de tristeza. Não havia nada de errado com a saúde dela e nenhuma prova contra Francisco, mas a expressão do rosto na hora da morte era de um vazio inexplicável e perturbador. 'O sufocador roubou a alma dela', um comentário solto durante o velório fez com que todos se benzessem.

Por mais que a família de Francisco tivesse tentado 'esconder' a sua bizarisse, depois daquela morte tornou-se impossível. Alguma das vitimas do sufocador de alma (como era vulgarmente conhecido) já haviam ido parar em hospícios e manicomios depois do perturbador contato visual, mas nenhuma delas, até aquele momento, tinha sido fatal. Com a morte sua história tomou os jornais e muitos médicos, de corpos e de almas, queriam ver o tal sufocador, cada qual com sua teoria, mas nenhum tinha uma explicação. Como era de se esperar nem o alvoroço causado pela divulgação da história e nem a morte da menina não mexeram com Francisco.

A lua cheia brilhava magnífica em uma noite aparentemente calma, Francisco, que agora só saia de casa de madrugada para evitar curiosos e possíveis vitimas, voltava de uma caminhada quando foi violentamente abordado por uma senhora tomada pela ira. 'O que ela te fez', gritava com uma voz histérica e estridente. Era a mãe da curiosa menina que teve sua vida apagada anos antes. O gesto da mulher derrubou Francisco no chão. Ele não teve a oportunidade de nada falar. Rapidamente, ela subiu em cima dele, que estava deitado na grama de barriga para cima, e começou a esmurrar, com todo o seu ódio, o rosto de Francisco. 'Ela era minha vida, minha única filha' e as lágrimas daquela mãe desesperada corriam pelo seu rosto e caiam sobre magicamente dentro dos olhos de Francisco. 'Por quê?', ela gritava, batia e chorava.

A cena não durou muito. A princípio Francisco sentiu somente a dor física das agressões, mas de acordo com que as lágrimas de sofrimento daquela senhora inundavam o seu rosto que estava virado para cima, ela viu a lua. Foi como se as lágrimas tivessem lavado seus olhos e dado a ele a visão perfeita, ou como se tivessem o presenteado com uma alma, ele não sabia. Só sabia que agora estava vendo, enxergando e principalmente sentindo a dor daquela mãe. Pela primeira vez Francisco chorou...

Bruna Presmic